Artigo de opinião escrito por Miguel Cunha-  Presidente da Mesa do Plenário no núcleo da IL em Mirandela

Filho e neto de agricultores, desde pequenino que ouço – “Agarra-te aos livros que isto não dá nada”. É um aviso certeiro dos mais experientes, aqueles que passaram verdadeiras dificuldades, que muitas vezes não viviam, mas sobreviviam e onde o trabalho duro era a única garantia que tinham.

Aqueles que outrora faziam de tudo para suprir as mais básicas das necessidades e que com muito trabalho conquistaram tudo aquilo que possuem hoje, são os mesmos que nos dizem para não ficarmos, não nos prendermos, irmos à procura de futuro, à procura de oportunidades, à procura de conhecimento, tudo… menos ficar.

Não é porque se querem ver livres de nós, muito pelo contrário, é porque querem o melhor para os seus. E hoje, infelizmente, o melhor, não está na agricultura, não está nas aldeias, não está em Trás-os-Montes e também não está no Interior.

E se hoje isto é verdade, deve-se à escassa importância que os nossos governantes deram à agricultura, às aldeias, a Trás-os-Montes e ao Interior. As constantes políticas de desinvestimento público e a má gestão dos recursos dos contribuintes aliada à falta de incentivo ao investimento privado, nacional ou estrangeiro, a obscena burocracia, a excessiva carga fiscal sobre as pessoas e as empresas e a sobreposição da cor partidária à competência e ao mérito fazem de Portugal um país estagnado e do Interior a região esquecida. A falta de visão e estratégia, a carência na inovação e a pouca aposta nas novas tecnologias condenaram os jovens de hoje – “a geração mais qualificada de sempre” – a fazer as malas e procurar outros destinos.

Os indicadores dos Censos de 2021, são deveras preocupantes. Demonstram um Interior em declínio e despido de gente, aldeias cada vez mais envelhecidas sem esperança no futuro. Só no concelho de Mirandela, na última década, houve uma redução média de 18% de habitantes nas aldeias e vila, chegando a atingir um máximo de 30% na freguesia da Bouça. Não existe uma única localidade no concelho que contrarie a tendência decrescente. Uma única. Nós, jovens (15-24 anos) representamos, apenas, 9.2% da população de todo o concelho.

Que visão de futuro podem ter estes 9,2% de cidadãos mirandelenses quando vêm que os partidos do poder não querem investir no Interior e reformar o país?

Somos um país desigual. No Interior faltam acessos de qualidade, infraestruturas de todo o tipo, voto verdadeiramente democrático, e acima de tudo, incentivos e oportunidades. Podemos e devemos ser nós, jovens inconformados, a mudar a mentalidade e, aliados à experiência dos mais velhos, investir no Interior e investir a sério. Todos nós, cidadãos do mundo, temos um papel determinante na sociedade onde nos inserimos e podemos ser verdadeiros agentes de mudança. Vamos investir no Interior com o nosso conhecimento e experiências de outras realidades. Vamos propor a mudança, vamos fazer propostas, mas vamos rápido que a velocidade da degradação do nosso Interior ultrapassa qualquer limite de velocidade. Caso contrário, continuaremos reféns das vontades de Lisboa e daquilo que o bipartidarismo quiser, veremos o nosso Interior a definhar, a ser ultrapassado, e aí continuaremos a pensar para nós próprios:

Então e nós?

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